Créeme


Créeme,
cuando te diga que el amor me espanta,
que me derrumbo ante un "te quiero" dulce,
que soy feliz abriendo una trinchera.
Créeme,
cuando me vaya y te nombre en la tarde
viajando en una nube de tus horas,
cuando te incluya entre mis monumentos.
Créeme,
cuando te diga que me voy al viento
de una razón que no permite espera,
cuando te diga "no soy primavera,
sino una tabla sobre un mar violento".

Créeme,
si no me ves y no te digo nada,
si un día me pierdo y no regreso nunca.
Créeme,
que quiero ser machete en plena zafra,
bala feroz al centro del combate.
Créeme,
que mis palomas tienen de arco iris,
lo que mis manos de canciones finas.
Créeme,
créeme, porque así soy
y así no soy de nadie.

(Vicente Feliú)

Um fado a Marceneiro

26 junho, 25 anos sem Alfredo

À solta e desvairada a morte certo dia
Entrou no velho páteo e ali quase em segredo,
Num golpe traiçoeiro de raiva e cobardia,
Maldosa nos levou p'ra sempre o Ti Alfredo
Ao chorar das guitarras como se fosse um hino

Juntou-se a voz do povo de Portugal inteiro
Tinha morrido o rei fadista genuíno
O mais de todos nós o grande Marceneiro
Sua garganta rouca tinha o condão cubano

De nos dar fado a sério sem áis, sem fantasias
Se o fado para ser fado algum segredo tem
Então esse segredo só ele o conhecia
Sempre que a noite chega eu julgo ainda vê-lo

Fazendo a sua ronda p'los retiros de fado
De boné ou mostrando o seu farto cabelo
E o seu lenço varino ao pescoço ajustado
Recordo as suas birras e em grande cavaqueira

Seus ditos graciosos se bem disposto estava
E oiço até o seu riso no Cacau da Ribeira
Onde já madrugada sua ronda findava
De Alfredo Marceneiro eu guardo um disco antigo

E um retrato dos dois sobre um fundo bairrista
Um fado ao desafio que ele cantou comigo
E uma eterna saudade desse enorme Fadista

(canción: Fernando Farinha; pintura: Alfredo Duarte, nieto)

O louco / O lenço

Quiseste que eu fosse louco
P'ra que te amasse melhor
Mas amaste-me tão pouco
Que eu fiquei louco de amor
Assim arrasto a loucura
Perguntando a toda a gente
Se do amor, a tontura
Um louco tambem a sente
E se quizeres amar
Esta loucura mulher
Dá-me apenas um olhar
Que me faça endoidecer
Dá-me um olhar mesmo triste
Pois só nesta condição
Dou-te a loucura que existe
Dentro do meu coração
O lenço que me ofertaste
Tinha um coração no meio
Quando ao nosso amor faltaste
Eu fui-me ao lenço e rasguei-o.



O lenço que me ofertaste
Com o meu coração no meio
Quando ao nosso amor faltaste
Eu fui-me ao lenço e rasguei-o
Ainda me lembro esse lenço
Vindo do teu seio túmido
Escondi-o ainda húmido
No peito com fogo intenso
Esse acaso, hoje penso
Qual infantil receio,
Muito orgulhoso guardei-o
Lamento a minha loucura
Porque esse lenço o perjura
Tinha um coração no meio
Esse coração bordado
Por triste sina era o meu
E por isso ele morreu
Quando o lenço foi rasgado
Foi-se a chama do passado
Pois em cinzas sepultaste
Este amor que atraiçoaste
O que serve a dor incalma
Vesti de luto a minh’alma
Quando ao nosso amor faltaste
Beijos, sorrisos e afagos
Me deste. Hei-de esquecê-los
Pois os teus doces desvelos
Com meus beijos foram pagos
Teus olhos eram dois lagos
Lascivio era o teu seio
Foi tudo efémero enleio
Breve e fugaz ilusão
Magoaste-me o coração
Eu fui-me ao lenço e rasguei-o

(Henrique Rêgo / Alfredo Marceneiro)

Antes e Depois


Minha guitarra é vaidosa
Mas vaidosa com encanto
Sente-se toda orgulhosa
Todas as vezes que canto
Alfredo, quando tu cantas
Cantas com tanta saudade
Eu sinto que tu encantas
Toda a minha mocidade
Dizem que o fado é desgraça
Fado é de muita gente
Mentira o fado não passa
O fado qualquer o sente
O fado é a voz do povo
Que com o povo nasceu
Tu és antigo e eu sou novo
Será meu como que foi teu
Entre fadistas de lei
Com meu concurso não falto
Tenho orgulho em ser de grei
Dos faias do Bairro Alto
A pesar de muito novo
Quando canto uma cantiga
Faço recordar ao povo
De fadistagem antiga
A minha pobre garganta
Já não tem a voz de outrora
Mas quando canta, ainda canta
Ao pé das vozes de agora
Quem sabe meu pioneiro
Sem nesta história não fica
O Alfredo Marceneiro
Junto ao miúdo da bica

(Fernando Farinha / Alfredo Marceneiro)

Adeus ó Serra da Lapa

Adeus ó Serra da Lapa
Adeus que te vou deixar
Ó minha terra ó minha enxada
Não faço gosto em voltar

Companheiros de aventura
Vinde comigo viajar
A noite é negra a vida é dura
Não faço gosto em voltar

Dou-te o meu lenço bordado
Quando de ti me apartar
Eu quero ir ao outro lado
Não faço gosto em voltar

O meu dinheiro contado
É para quem me levar
O meu caminho está traçado
Não faço gosto em voltar

Moirar a terra insegura?
Fugir da serra e do mar?
Meus companheiros de aventura
Tudo farei para salvar

(Zeca Afonso)

Como la cigarra


Tantas veces me mataron,
tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí,
resucitando.
Gracias doy a la desgracia
y a la mano con puñal
porque me mató tan mal,
y seguí cantando.
Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.
Tantas veces me borraron,
tantas desaparecí,
a mi propio entierro fui
sola y llorando.
Hice un nudo en el pañuelo
pero me olvidé después
que no era la única vez,
y seguí cantando.
Cantado al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que viene de la guerra.
Tantas veces te mataron,
tantas resucitarás,
tantas noches pasarás
desesperando.
A la hora del naufragio
y la de la oscuridad
alguien te rescatará
para ir cantando.
Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

(María Elena Walsh)

Ruby Tuesday


She would never say where she came from
Yesterday don't matter if it's gone
While the sun is bright or
In the darkest night
No one knows
She comes and go
Goodbye Ruby Tuesday,
Who could hang a name on you?
When you change with ev'ry new day
Still I'm gonna miss you
Don't question why she needs to be so free
She'll tell you it's the only way to be
She just can't be chained to a
Life where nothing's gained and nothing's lost at such a cost
Goodbye Ruby Tuesday,
Who could hang a name on you?
When you change...
"There's no time to lose"
I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams and you will lose your mind
Ain't life unkind?
Goodbye Ruby Tuesday,
Who could hang a name on you?
When you change...

(canción: Mick Jagger / Keith Richards; foto: Robert Doisneau)

Desert Rose


I dream of rain
I dream of gardens in the desert sand
I wake in painI dream of love as time runs through my hand
I dream of fire
Those dreams are tied to a horse that will never tire
And in the flames
Her shadows play in the shape of a man's desire
This desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower
No sweet perfume ever tortured me more than this
And now she turns
This way she moves in the logic of all my dreams
This fire burns
I realize that nothing's as it seems
I dream of rain
I dream of gardens in the desert sand
I wake in pain
I dream of love as time runs through my hand
I dream of rain
I lift my gaze to empty skies above
I close my eyes, this rare perfume
Is the sweet intoxication of her love
I dream of rain
I dream of gardens in the desert sand
I wake in pain
I dream of love as time runs through my hand
Sweet desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower,
No sweet perfume ever tortured me more than this
Sweet desert rose
This memory of Eden haunts us all
This desert flower, this rare perfurme
Is the sweet intoxication of the fall

(Sting)

Para una imaginaria María del Carmen

María del Carmen debió haber nacido
en Vertientes, aquí, hace veinte años y pico.
María del Carmen atraviesa el parque
y todos los ojos le halan el vestido.
María del Carmen revuelve la tarde
del pueblo pequeño que ve como pasa.
María del Carmen, el recién llegado
descubre en seguida lo mucho que faltas.
A María del Carmen la envuelven los ruidos
que salen del tándem inglés del central.
A María del Carmen el pelo y la piel
de seguro le huelen a miel residual.
María del Carmen, tan limpia y tan libre,
limpia de ser virgen, libre de prejuicios.
María del Carmen, tu entrega es total
porque a ti los misterios te sacan de quicio.
María del Carmen puede conversar
sobre la economía y sus ojos son anchos.
María del Carmen me mira el anillo
en la mano derecha y sonríe despacio.
María del Carmen no piensa en los trapos,
ni en lazos, ni en cintas, ni en viejas muñecas.
María del Carmen olvida a los novios,
la Patria es quien toca de noche en su puerta.
María del Carmen conoce la iglesia,
sabe donde está, pero no la visita.
María del Carmen se asombra con todo,
pero si la miran no baja la vista.
María del Carmen, aunque no te he visto,
podría pintarte en todos tus detalles.
María del Carmen, será inevitable
que un día tropiece contigo en la calle.
María del Carmen, si llego a encontrarte
tendré, de seguro, que amarte y amarte y amarte.

(canción: Noel Nicola; foto: Alfred Eisenstaedt)


Noite

Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Sou da noite um filho noite
Trago rugas nos meus dedos
De guardarem os segredos
Nas altas pontes do amor
E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Oh minha mãe de arvoredos
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
A minha voz soluçar
Dei-te um corpo de segredos
Onde arrisquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia ao luar
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

(canción: Vasco Lima Couto / Max; foto: Brassaï)