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Sei de um rio

Sei de um rio
sei de um rio
em que as únicas estrelas

nele sempre debruçadas
são as luzes da cidade.

Sei de um rio
sei de um rio
rio onde a própria mentira
tem o sabor da verdade
sei de um rio.

Meu amor dá-me os teus lábios
dá-me os lábios desse rio
que nasceu na minha sede
mas o sonho continua.

E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio...

Sei de um rio
até quando.

(Pedro Homem de Mello / Alain Oulman)


Te juro

Meus olhos eram mesmo água
─te juro─
lustro de brilho vidrado
─te juro─
Meus olhos eram mesmo água
verde-claro, verde-escuro.

Três barquinhos de brinquedo
─te juro─
fui botando todos eles
─te juro─
naquele rio tão puro
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania
─te juro─
as águas mudam seu brilho
quando o tempo é inseguro
quando o tempo é inseguro
─te juro─

Quando as águas escurecem
todos os barcos se perdem
entre o passado e o futuro
entre o passado e o futuro.

São dois rios os meus olhos
─te juro─
noite e dia correm, correm
─te juro─
mas não acho o que procuro
mas não acho o que procuro.

(letra: Cecília Meirelles; música: Alain Oulman)

Fado Português

O fado nasceu um dia
Quando o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava
Na amurada de um veleiro
No peito de um marinheiro
Que estando triste cantava
Ai que lindeza tamanha
Meu chão, meu monte, meu vale
De folhas, flores, frutas de oiro
Vê se vês terras de Espanha
Areias de Portugal
Olhar ceguinho de choro
Na boca de um marinheiro
No frágil barco veleiro
Cantando a canção magoada
Diz o pungir dos desejos
Do lábio a queimar de beijos
Que beija o ar e mais nada
Mãe adeus, adeus Maria
Guarda bem o teu sentido
Que aqui te faço uma jura
Que eu te leve à sacristia
Ou foi Deus que foi servido
Dai-me no mar sepultura
Ora eis que embora outro dia
Quando o vento nem bulia
E o céu o mar prolongava
À proa de outro veleiro
Velava outro marinheiro
Que estando triste cantava

(José Régio)

Meu amor meu amor (Meu limão de amargura)

al portugués de Sicilia


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura
meu punhal a crescer
nós parámos o tempo
não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
Este mar não tem cura
este céu não tem ar
nós parámos o vento
não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

(canción: Ary dos Santos/Alain Oulman; foto: Gonzalo HY)

Gaivota


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

(letra: Alexandre O’Neill; música: Alain Oulman)

Maria Lisboa


É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no chaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.

(letra: David Mourão-Ferreira; música: Alain Oulman; cuadro: Ángel Oliveras Guart)