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Ser aquele


Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

(canción: Fernando Pessoa / Fado Menor;
foto: Lars-Daniel Öhman)

Vendaval

O vendaval passou, nada mais resta
A nau do meu amor tem novo rumo
Igual a tudo aquilo que não presta
O amor que me prendeu, desfez-se em fumo

Navego agora em mar de calmaria
Ao sabor da maré, em verdes águas
Ao leme o esquecimento e a alegria
Vão deixando para trás as minhas mágoas

Para onde vou?
Não sei...
O que farei?
Sei lá...
Só sei que me encontrei
E que eu sou eu enfim
E sei que ninguém mais rirá de mim

Longe no cais ficou a tua imagem
Mal a distingo já esmaecida
Ao lado a alegrar-me a viagem
Vão andorinhas de paz, de nova vida

Sigo tranquilo o rumo da esperança
Buscando aquela paz apetecida
Para ti eu fui um lago de bonança
Ai! tu, um vendaval na minha vida.

Para onde vou?
Não sei...
O que farei?
Sei lá...
Só sei que me encontrei
E que eu sou eu enfim
E sei que ninguém mais rirá de mim

(canción: António da Fonseca Rodrigues / Joaquim Pimentel; foto: Gonzalo HY)

A luz de Lisboa (Claridade)

Quando Lisboa escurece
E devagar adormece
Acorda a luz que me guia;
Olho a cidade e parece
Que é de tarde que amanhece
Que em Lisboa é sempre dia

Cidade sobrevivente
Dum futuro sempre ausente
Dum passado agreste e mudo
Quanto mais te enches de gente
Mais te tornas transparente
Mais te redimes de tudo

Acordas-me adormecendo
E dos sonhos que vais tendo
Faço a minha realidade
E é de noite que eu acendo
A luz do dia que aprendo
Com a tua claridade

(canción: Manuela de Freitas / José Mário Branco; foto: Gonzalo HY)

Maré viva

Primeiro a minha mão sobre o teu seio.
Depois o pé ─o teu─ sobre o meu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.
É a onda do dorso que se instala.
É a linha do doce que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia de tão leve.
O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
Audácia que não ache um abandono.
Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.
Por fim o sono calmo que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o teu pé descansando no meu pé,
a minha mão dormindo no teu seio

(canción: Rosa Lobato de Faria/Mário Pacheco; foto: Miguel Rosado)

Sei de um rio

Sei de um rio
sei de um rio
em que as únicas estrelas

nele sempre debruçadas
são as luzes da cidade.

Sei de um rio
sei de um rio
rio onde a própria mentira
tem o sabor da verdade
sei de um rio.

Meu amor dá-me os teus lábios
dá-me os lábios desse rio
que nasceu na minha sede
mas o sonho continua.

E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio...

Sei de um rio
até quando.

(Pedro Homem de Mello / Alain Oulman)


Te juro

Meus olhos eram mesmo água
─te juro─
lustro de brilho vidrado
─te juro─
Meus olhos eram mesmo água
verde-claro, verde-escuro.

Três barquinhos de brinquedo
─te juro─
fui botando todos eles
─te juro─
naquele rio tão puro
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania
─te juro─
as águas mudam seu brilho
quando o tempo é inseguro
quando o tempo é inseguro
─te juro─

Quando as águas escurecem
todos os barcos se perdem
entre o passado e o futuro
entre o passado e o futuro.

São dois rios os meus olhos
─te juro─
noite e dia correm, correm
─te juro─
mas não acho o que procuro
mas não acho o que procuro.

(letra: Cecília Meirelles; música: Alain Oulman)

Se ao menos houvesse um dia


Se ao menos houvesse um dia
Luas de prata gentia
Nas asas de uma gazela
E depois, do seu cansaço,
Procurasse o teu regaço
No vão da tua janela
Se ao menos houvesse um dia
Versos de flor tão macia
Nos ramos com as cerejas
E depois, do seu outono,
Se dessem ao abandono
Nos lábios, quando me beijas
Se ao menos o mar trouxesse
O que dizer e me esquece
Nas crinas da tempestade
As palavras litorais
As razões iniciais
Tudo o que não tem idade
Se ao menos o teu olhar
Desse por mim ao passar
Como um barco sem amarra
Deste fado onde me deito
Subia até ao teu peito
Nas veias de uma guitarra.

(João Monge / Fado Três Bairros, Casimiro Ramos)

Guitarra, guitarra / Guitarra

Ó guitarra, guitarra, por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Guitarra emudece
O som que me entristece
Vertendo sobre mim a nostalgia
Ó guitarra, guitarra, vais ter dó
Não rasgues o silêncio a um homem só
Guitarra o teu gemer
Mais dor me vem fazer
Como o vento a afagar a noite fria
Guitarra emudece
O som que me entristece
Pois se te ouço chorar também eu choro
Maior do que a madeira em que te talham
Guitarra, é o teu mundo onde eu moro
Ó guitarra, guitarra, por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Ó guitarra, guitarra, fica muda
Sem ti talvez minh'alma inda se iluda
Vais ter que responder
Ao peso desta enorme nostalgia
Guitarra emudece
O som que me entristece
Pois se te ouço chorar também eu choro
Maior do que a madeira em que te talham
Guitarra, é o teu mundo onde eu moro
Ó guitarra, guitarra, por favor

(Jorge Fernando)


Quando uma guitarra trina
Nas mãos de um bom tocador
A própria guitarra ensina
A cantar seja quem for
Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra
A forma de um coração
A forma de uma guitarra
Guitarra, guitarra querida
Eu venho chorar contigo
Sinto mais suave a vida
Quando tu choras comigo

(letra dos Poetas do fado; música: Pedro Ayres Magalhães / Rodrigo Leão)