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Guarda-me a vida na mão


Guarda-me a vida na mão
Guarda-me os olhos nos teus
Dentro desta solidão
Nem há presença de Deus

Como a queda dum sorriso
P’lo canto triste da boca
Neste vazio impreciso
Só a loucura me toca

Esperei por ti todas as horas
Frágil sombra olhando o cais
Mas mais triste que as demoras
É saber que não vens mais


(Jorge Fernando/Raúl Ferrão;

foto: Paulo César)

Por um dia

Perguntares como é que eu estou
Não é quanto baste
Quereres saber a quem me dou
Não é quanto baste
E dizeres para ti morri
É um estranho contraste
Nada mais te liga a mim
Tu nunca me amaste
Telefonas para saber
Como vai a vida
E mais feres sem querer
Minha alma ferida
E assim rola a minha dor
Pássaro ferido
Que não esquece o teu amor
Estranho e proibido
Deixa-me só por um dia
Minha fria companhia
Dizes ser tão actual
Ficarmos amigos
No teu jeito natural
De enfrentar os perigos
Sem saberes que dentro de mim
Ainda arde a chama
Que não perde o seu fulgor
Que ainda te ama
Deixa-me só por um dia
Minha fria companhia

(Jorge Fernando)




Lágrima

Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto
Desespero
Tenho para meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo
Não te quero
Eu digo que te não quero
E de noite
A noite sonho contigo
Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar

(canción: Amália Rodrigues/Carlos Gonçalves; foto: Eve Arnold)

Chuva

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir

São emoções que dão vida
À saudade que trago
Aquelas que tive contigo
E acabei por perder

Há dias que marcam a alma
E a vida da gente
E aquele em que tu me deixaste
Não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
Há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
Meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

(Jorge Fernando)

Guitarra, guitarra / Guitarra

Ó guitarra, guitarra, por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Guitarra emudece
O som que me entristece
Vertendo sobre mim a nostalgia
Ó guitarra, guitarra, vais ter dó
Não rasgues o silêncio a um homem só
Guitarra o teu gemer
Mais dor me vem fazer
Como o vento a afagar a noite fria
Guitarra emudece
O som que me entristece
Pois se te ouço chorar também eu choro
Maior do que a madeira em que te talham
Guitarra, é o teu mundo onde eu moro
Ó guitarra, guitarra, por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Ó guitarra, guitarra, fica muda
Sem ti talvez minh'alma inda se iluda
Vais ter que responder
Ao peso desta enorme nostalgia
Guitarra emudece
O som que me entristece
Pois se te ouço chorar também eu choro
Maior do que a madeira em que te talham
Guitarra, é o teu mundo onde eu moro
Ó guitarra, guitarra, por favor

(Jorge Fernando)


Quando uma guitarra trina
Nas mãos de um bom tocador
A própria guitarra ensina
A cantar seja quem for
Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra
A forma de um coração
A forma de uma guitarra
Guitarra, guitarra querida
Eu venho chorar contigo
Sinto mais suave a vida
Quando tu choras comigo

(letra dos Poetas do fado; música: Pedro Ayres Magalhães / Rodrigo Leão)