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Muito embora o querer bem

Muito embora o querer bem
Não seja um invento meu,
Não permito que ninguém
Te queira mais do que eu.

Meu coração vagabundo
Irá, seja como for,
Rua em rua, mundo em mundo,
Atrás de ti, meu amor.

Estes meus braços caídos,
Fugindo a todos os laços,
Só vibram quando pedaços
Dos nossos corpos unidos.

A minha boca e a tua,
Mal deixam de estar unidas,
Lembram meninas perdidas,
A minha boca e a tua.

Odeio o mundo, a inveja,
As convenções, o temor...
Odeio tudo o que esteja
Entre nós dois, meu amor.

(Artur Ribeiro / Raúl Ferrão; canta Ricardo Ribeiro)

Voltaste

Voltaste, ainda bem que voltaste
As saudades que eu sentia não podes avaliar
Voltaste, e á minha vida vazia
Voltou aquela alegria que só tu lhe podes dar

Voltaste, ainda bem que voltaste
Embora saiba que vou sofrer o que já sofri
Cansei, cansei de chorar sozinha
Antes mentiras contigo do que verdades sem ti

Voltaste, que coisa mais singular
Eu quase não sei cantar se tu não estás a meu lado
Voltaste, já não me queixo nem grito
És o verso mais bonito dêste meu fado acabado

Voltaste, ainda bem que voltaste
O passado é passado, para que lembrar agora
Voltaste, quero lá saber da vida
Quando dormes a meu lado, a vida dorme lá fora

(letra: Joaquim Pimentel; foto: Gonzalo HY; canta Beatriz da Conceição)

Madrugada sem sono

parabéns, siciliano

Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos,
Tive saudades, chorei.

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi.
Andei dum corpo a outro corpo
Só para fugir de ti.

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama.
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama.

Ai, abraços frios de raiva!
Ai, beijos de nojo e fome!
Ai, nomes que murmurei
Com a febre do teu nome!

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi meus brancos lençóis,
Tive saudades, chorei.

(canción: Goulart Nogueira / Raúl Ferrão; foto: Lisboa à noite, EudaldCJ)

Meu corpo

Meu corpo
é um barco sem ter porto
tempestade no mar morto
sem ti.
Teu corpo
é apenas um deserto
quando não me encontro perto
de ti.
Teus olhos
são memórias do desejo
são as praias que eu não vejo
em ti.
Meus olhos
são as lágrimas do Tejo
onde eu fico e me revejo
sem ti.
Quem parte de tão perto nunca leva
as saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
das saudades de quem parte
e dos olhos de quem morre.
Não sei
se o orgulho da tristeza
nos dói mais do que a pobreza
não sei.
Mas sei
que estou para sempre presa
à ternura sem defesa
que eu dei.
Quem parte de tão perto nunca leva
as saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
das saudades de quem parte
e dos olhos de quem morre.
Sozinha
numa cama que é só minha
espero o teu corpo que eu tinha
só meu.
Se ouvires
o chorar duma criança
ou o grito da vingança
sou eu.
Sou eu
de cabelo solto ao vento
com olhar e pensamento
no teu.
Sou eu
na raiz do sofrimento
contra ti e contra o tempo
sou eu.

(letra: Ary dos Santos; foto: Gonzalo HY)

Vazio

Já derramei silêncios e cansaços
Apertei vazios, quanta vez
E quantas amarguras nos meus braços
Acolhi sem perder a altivez
E bebi tantos copos de saudade
E gargalhei da própria ironia
Que quando pressenti a fantasia
O tempo, o tempo ultrapassou a minha idade
Encontrei-me como sempre transparente
Vendo através de mim sem me encontrar
Não descansei a mente a procurar
A razão que me faz andar ausente
Se tudo quanto fui é tão presente

(letra: Ana Madalena; música: Pedro Vilar; canta Beatriz da Conceição)

Noite

Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Sou da noite um filho noite
Trago rugas nos meus dedos
De guardarem os segredos
Nas altas pontes do amor
E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Oh minha mãe de arvoredos
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
A minha voz soluçar
Dei-te um corpo de segredos
Onde arrisquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia ao luar
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

(canción: Vasco Lima Couto / Max; foto: Brassaï)

Já me deixou

A saudade andou comigo
E através do som da minha voz
No seu fado mais antigo
Fiz mil versos a falar de nós

Troçou de mim a vontade
Sem ouvir sequer os meus lamentos
E por caprichoso ou maldade
Correu comigo a cidade
Até há poucos momentos

Já me deixou, foi-se logo embora
A saudade a quem chamei maldita
Já nos meus olhos não chora
Já nos meus sonhos não grita

Já me deixou, foi-se logo embora
Minha tristeza chegou ao fim
Já me deixou mesmo agora
Saiu p’la porta fora,
Ao ver-te voltar, p’ra mim.

Nem sempre a saudade é triste
Nem sempre a saudade é pranto e dor
Se em paga, a saudade existe,
A saudade não dói tanto amor

Mas enquanto tu não vinhas
Foi tão grande o sofrimento meu,
Pois não sabia que tinhas
Em paga as saudades minhas
Mais saudades do que eu.

(letra: Artur Ribeiro; música: Max; foto: Manuel Álvarez Bravo)