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Noite

Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Sou da noite um filho noite
Trago rugas nos meus dedos
De guardarem os segredos
Nas altas pontes do amor
E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei
Oh minha mãe de arvoredos
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
A minha voz soluçar
Dei-te um corpo de segredos
Onde arrisquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia ao luar
Noite companheira dos meus gritos
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei
Noite céu dos meus casos perdidos
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei

(canción: Vasco Lima Couto / Max; foto: Brassaï)

Já me deixou

A saudade andou comigo
E através do som da minha voz
No seu fado mais antigo
Fiz mil versos a falar de nós

Troçou de mim a vontade
Sem ouvir sequer os meus lamentos
E por caprichoso ou maldade
Correu comigo a cidade
Até há poucos momentos

Já me deixou, foi-se logo embora
A saudade a quem chamei maldita
Já nos meus olhos não chora
Já nos meus sonhos não grita

Já me deixou, foi-se logo embora
Minha tristeza chegou ao fim
Já me deixou mesmo agora
Saiu p’la porta fora,
Ao ver-te voltar, p’ra mim.

Nem sempre a saudade é triste
Nem sempre a saudade é pranto e dor
Se em paga, a saudade existe,
A saudade não dói tanto amor

Mas enquanto tu não vinhas
Foi tão grande o sofrimento meu,
Pois não sabia que tinhas
Em paga as saudades minhas
Mais saudades do que eu.

(letra: Artur Ribeiro; música: Max; foto: Manuel Álvarez Bravo)