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Um fado a Marceneiro

26 junho, 25 anos sem Alfredo

À solta e desvairada a morte certo dia
Entrou no velho páteo e ali quase em segredo,
Num golpe traiçoeiro de raiva e cobardia,
Maldosa nos levou p'ra sempre o Ti Alfredo
Ao chorar das guitarras como se fosse um hino

Juntou-se a voz do povo de Portugal inteiro
Tinha morrido o rei fadista genuíno
O mais de todos nós o grande Marceneiro
Sua garganta rouca tinha o condão cubano

De nos dar fado a sério sem áis, sem fantasias
Se o fado para ser fado algum segredo tem
Então esse segredo só ele o conhecia
Sempre que a noite chega eu julgo ainda vê-lo

Fazendo a sua ronda p'los retiros de fado
De boné ou mostrando o seu farto cabelo
E o seu lenço varino ao pescoço ajustado
Recordo as suas birras e em grande cavaqueira

Seus ditos graciosos se bem disposto estava
E oiço até o seu riso no Cacau da Ribeira
Onde já madrugada sua ronda findava
De Alfredo Marceneiro eu guardo um disco antigo

E um retrato dos dois sobre um fundo bairrista
Um fado ao desafio que ele cantou comigo
E uma eterna saudade desse enorme Fadista

(canción: Fernando Farinha; pintura: Alfredo Duarte, nieto)

Antes e Depois


Minha guitarra é vaidosa
Mas vaidosa com encanto
Sente-se toda orgulhosa
Todas as vezes que canto
Alfredo, quando tu cantas
Cantas com tanta saudade
Eu sinto que tu encantas
Toda a minha mocidade
Dizem que o fado é desgraça
Fado é de muita gente
Mentira o fado não passa
O fado qualquer o sente
O fado é a voz do povo
Que com o povo nasceu
Tu és antigo e eu sou novo
Será meu como que foi teu
Entre fadistas de lei
Com meu concurso não falto
Tenho orgulho em ser de grei
Dos faias do Bairro Alto
A pesar de muito novo
Quando canto uma cantiga
Faço recordar ao povo
De fadistagem antiga
A minha pobre garganta
Já não tem a voz de outrora
Mas quando canta, ainda canta
Ao pé das vozes de agora
Quem sabe meu pioneiro
Sem nesta história não fica
O Alfredo Marceneiro
Junto ao miúdo da bica

(Fernando Farinha / Alfredo Marceneiro)

Canção de Lisboa


Quando o fado era cantado
pelas tabernas de Alfama,
ninguém diria que o fado
viesse a ter boa fama.
Era a canção
da bebedeira e do calão,
da rufiagem, capelão
e dos fadistas de samarra
e mal diria
a Madragoa e a Mouraria
quem em Lisboa inda haveria
assim tal gosto pela guitarra.
Adeus tardes de toiradas
com guitarras e cantigas,
adeus noites bem passadas
com bom vinho e raparigas.
Hoje os fadistas
são tratados por artistas
e aclamados nas revistas
com ovações delirantes.
Vestem do bom
e por ser chique e ser do tom
já vão à tarde ao Odeon
se as matinés são elegantes.
Hoje o fado já não tem
a rufiagem por tema.
Poliu-se, já é alguém
e até já vai ao cinema.
O fado agora
é pedido a toda a hora
e ouvido p’lo mundo fora
com alegria e agrado
e há de chegar
a Hollywood e ter lugar,
pois não se ilude quem pensar
que há-de ser grande o nosso fado.

(letra: Fernando Farinha; pintura: José Malhoa)