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Má fortuna

No cabo de Guardafui
Vou aguardando bons ventos
Tiro a pena da mochila
E assento meus pensamentos
Às voltas com seu fadário
Um simples soldado raso
Tomai lá meu secretário
E guardai bem este meu caso
Só me deu p’ra dizer não
Em tempo de dizer sim
Também na mesma moeda
O mundo me paga a mim
Como este cabo tão triste
Pedregoso e sem verdura
Assim minha vida existe
Marcada p’la desventura
Pergunto à musa porquê
Pergunto aos deuses nos céus
Todos me dizem que é só
Má fortuna e erros meus
Se baixo o amor à taberna
E depois o subo em soneto
Ele arde em mim com dois lumes
Um é branco e outro é preto
Assim ando estrada fora
Como um bardo vagabundo
Desisti de ver a hora
De ficar de bem com o mundo
No cabo de Guardafui
Guardei os meus pensamentos
Ponho a mochila às costas
Pois já sopram melhores ventos
Como esse cabo que existe
À tristeza condenado
Também a má fortuna insiste
Em andar sempre a meu lado
Pergunto à musa porquê
Pergunto a vós que me ouvis
Também achais que um poeta
Só é bom quando infeliz?

(canción: Carlos Tê / Rui Veloso; foto: Miguel Rosado)

Amor é fogo que arde sem se ver / Definiendo el amor

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Amor é fogo que arde sem se ver, Luís Vaz de Camões, 1524/25-1580)

(imagen: película Gertrud, 1964 - Carl Theodor Dreyer)

Es hielo abrasador, es fuego helado,
es herida, que duele y no se siente,
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.

Es un descuido, que nos da cuidado,
un cobarde, con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.

Es una libertad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo,
enfermedad que crece si es curada.

Éste es el niño Amor, éste es tu abismo
¡Mirad cuál amistad tendrá con nada
el que en todo es contrario de sí mismo!

(Definiendo el amor, Francisco de Quevedo, 1580-1645)

Verdes são os campos


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

(letra: Luís de Camões; música: Zeca Afonso; foto: Gonzalo HY)